História 45

Racionalizando o extraordinário

Resolvi descrever um fato verídico e pessoal, mas, que parecerá a muitos inverídico, contudo, ouso descrevê-lo em nome da Verdade e para extrair uma necessária reflexão.

Na sexta-feira, dia 15 de julho, passei um tempo da tarde ajudando um pedreiro, o Sr. Aparecido, em meu quintal, que fez uma bela casinha para guarda de materiais e estava dando os arremates finais, como massa na parede, etc. Eu, por ali, conforme me pedia algo, ia providenciando e, enquanto isso, aproveitei com uma colher de pedreiro (minha), afofar a terra de um espaço que reservamos para plantio de hortaliças.

Conversamos sobre muitas coisas, pois esse pedreiro, velho conhecido nosso e vizinho, que lembra muito o saudoso Nadier no modo de falar, trejeitos e até no semblante, é muito falante... Vai contando casos e emendando uma história na outra... Num momento em que ele falava da vida no sítio indaguei-o sobre se acreditava em lobisomem, pra ver as ideias do homem... Ah... Imagina que não! Ele me contou umas passagens históricas do que viu e ouviu do tempo de jovem e aí entrou pelo meio o Saci e outras coisas mais... Tudo bem, fomos assuntando, e eu disse a ele também que não duvidava, pois já ouvi histórias de gente bem centrada que vivenciou coisas misteriosas no meio rural.

Daí ele me pediu um tanto d’água para colocar na massa que estava dentro da carriola. Nesse meio tempo, retomando minha lida com a terra, não encontrava minha colher... Procurei, procurei... E simplesmente não achei... Até falei: “Não sei o que fiz com a colher, não tá em nenhum lugar...” Mas, ele contando os causos, nem parou pra notar muito, foi esticando assunto...

Procurei em todo lugar até ficar irritado por não encontrar, pois, não saí do quintal, pô! Tinha que estar lá, como não estaria? O quintal é pequeno e ninguém pegou... Chegou certa hora, desisti e fui fazer outra coisa. Depois esqueci o fato. Ficou por isso mesmo.

No outro dia, estando no quintal pra tomar um solzinho, aproveitei dar uma busca novamente, olhei cada canto onde pudesse ter esquecido e nada! No domingo, de novo, pois sempre estamos por ali fazendo alguma coisa. Nada... Dorotéia resolveu replantar uma muda de Manacá da Serra que comprou no Carrefour e a ajudei. Depois, deu uma varrida no chão e eu comentava que já estava cansado da história do sumiço da colher porque não tinha sentido aquilo e que, inclusive, naquele momento de replantar o Manacá, a ferramenta estava me fazendo falta...

Daí, eis que me veio uma ideia, e tão logo esta me surgiu na cabeça eu a pratiquei.
Olhei bem para todos os cantos e disse em voz alta (sem preocupação se algum vizinho pudesse ouvir):
- Saci! Eu sei que você escondeu minha colher de pedreiro! Por favor, devolva minha ferramenta!

Dorotéia me olhou bem, com a vassoura na mão e achou graça dizendo:
- Se contar pros outros uma coisa dessas vão dizer que estamos muito tontos!
Falamos mais alguma coisa e mal deu tempo de eu mudar de posição no local, olhei e vi a colher ao lado da casinha, no chão! Gritei:
- Meu Deus, olha a colher ali!

Dorotéia na hora avistou e falou:
- Como assim? Ela estava ali?
Respondi: Agora que estou vendo! Mas, não pode ser...
Aquilo era simplesmente impossível! Olhei ali dezenas de vezes, ela também, sem chance de engano! Ficamos nós dois bobos com aquilo...
Daí, já que deu certo, falei:
- Obrigado por ser bonzinho comigo! Então, se quiser você pode habitar o meu quintal!
Mais risadas nossas... E após as risadas ficamos teorizando sobre a situação. Não conseguia acreditar, por mais que seja eu uma pessoa de fácil aceitação das coisas mágicas.

Ilusão imaginar que fiquei tranquilo... Fiquei pensando sobre isso. Na cama à noite ficava matutando e tentando pensar (racionalmente) se havia possibilidade de eu não ter visto a colher todo o tempo ali... Até chegar à indefectível conclusão de que realmente não era possível... Ora, foram três dias de sumiço! Foi mesmo um fato extraordinário!

Bem, depois que aceitei que aquilo realmente extrapolou a normalidade ou o que pobremente entendemos por “realidade”, passei a considerar o seguinte: quando esse tipo de coisa acontece, com qualquer pessoa, costumamos achar “curioso”, comentar como assunto fantástico e depois deixar pra lá, pois, afinal, o que se vai fazer? A gente deixa pra lá por impotência...
Resolvi não deixar pra lá não!... Rebelei-me!

Não se usa a lógica para tentar encontrar uma possível explicação natural? Pois, se não há, então por que não posso tentar usar o racional pra esticar meu entendimento até onde der?
Afinal, o Racional não está de plantão o tempo todo? Então vamos em frente! Avaliei criteriosamente vários aspectos da questão.

Cheguei a estas observações:
a) Nada acontece por acaso...
b) Logo, não foi um acaso...
c) Se há uma razão, qual é? Aqui cabe o questionamento básico.
d) Aparentemente, tudo leva a crer que a conversa foi o ponto de ignição de tudo: falamos de lobisomem, de saci e outras coisas mágicas, inclusive, Aparecido deu-me uma “receita” de como entrar na mata virgem e avistar o “Caipora”... É uma receita mesmo, mas, o sujeito tem que ser corajoso! Quem for curioso, que me procure que repasso a receita... A conversa teria “linkado” essa força mágica? Afinal, aprendemos esotericamente que o verbo tem força, magia da palavra...
e) Na conversa com Aparecido eu disse que acreditava nessas coisas em respeito a certas pessoas que conheço que são sérias... Logo, afirmei algo, emanei uma energia de aceitação... Tudo o que vibra alcança uma direção...
f) Ao finalmente me dirigir ao “Saci”, afirmei “eu sei que você escondeu...” não disse “acho que”..., nem formulei uma pergunta... Digamos que, fui objetivo e incidente.
g) Em seguida pedi: “Por favor, me devolva à ferramenta”... Em outras palavras, usei de educação... Não dei ordem, fiz um pedido... Se isso tem um valor Universal, aí valeu...
h) “Saci” – consideremos - é um nome e uma forma que se dá, talvez, a uma força mágica da natureza, muito antiga, que se manifesta de forma brincalhona....E que gerou uma lenda por falta de melhor explicação.
i) Se essa força é bastante consciente, além do que possamos imaginar, saberia desde logo que sou um autor animado a escrever e que isso inevitavelmente acabaria virando um relato... Logo, fez tudo de “caso pensado”?
j) Talvez todas essas conjecturas sejam bobagens e nada disso valha nada... Mas, por outro lado, “tudo não valer nada” não seja algo lógico e a lógica existe por algum motivo... Não podemos simplesmente ignorá-la sob pena de sermos omissos, pois, nascemos dotados dela... Não é lógico isso?
k) Enfim, depois de todas essas considerações... O que foi que realmente aconteceu?
l) É para eu acreditar em Saci a partir de agora?

Conclusão da história: creio que realmente vivemos um momento de “encanto” como diz o pessoal da roça e ao final vi-me feliz, afinal de contas, por ter mais uma história pra narrar e registrar nas letras. Sempre guardarei, daqui em diante, a dúvida sobre se essa força mágica habitará mesmo o quintal (conforme meu convite) ou foi apenas uma “passagem” ocasional. Comentei com um amigo sobre essa história e ele disse que há um clube na NET de pessoas que seriamente acreditam nesse assunto e que colecionam narrativas. Talvez eu contribua com eles mandando esta história. Com isso pode acontecer de conhecer pessoas novas, arrumar algum novo amigo/amiga legal... Já seria um lucro a mais. Logo, nada será perdido, desde que não se cubra a experiência com silêncio, por vergonha...

Êta sacizinho danado, você me deixou encantado!



Jorge Facury
Escritor

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