História 40

O chulé, o jacaré e o menino

Era um menino matreiro e um jacaré guloso e faminto que só vendo!
O jacaré vivia no meio de um rio. O rio ficava no meio da mata.
E o menino morava perto do rio que ficava no meio da mata.
O que o menino mais gostava de fazer, além de subir nas árvores e jogar frutinhas no rio, era azucrinar a vida do jacaré.

Como o jacaré era muito guloso e faminto, o menino adorava ficar na beira do rio avisando do jacaré para quem fosse passar pela ponte.
Quando alguém botava o pé na ponte, o jacaré já ficava de aviso, pronto para o bote e o menino, também, pronto pra berrar:
— Olha o jacaré, olha o jacaré!
Cuidado com ele que ele engole o seu pé!

Ah o jacaré! A maior vontade dele era engolir aquele menino fuxiqueiro!
E assim, todo o dia era assim naquele pedaço do mundo no meio da mata.
Mas um dia foi diferente.
O menino acordou, comeu o mingau e já foi lá pra fora brincar e, é lógico, atrapalhar o almoço do jacaré.

Ele ficou lá na margem do rio jogando pedrinhas, frutinhas, na maior paciência... esperando o primeiro que colocasse o pé do outro lado da ponte.
O jacaré, também, ficou lá no meio do rio se fazendo de morto.
Passou o tempo e, de repente, surgiu um pontinho escuro do outro lado da ponte. Um pontinho escuro e uma fumaçinha.

O menino parou com a brincadeira e ficou bem esperto esperando o pontinho crescer, tomar formato de gente grande ou pequena, gente homem ou mulher.
O jacaré também. Mesmo se fazendo de morto já foi se preparando pra dar o bote.
O pontinho escuro foi crescendo, crescendo. A fumaçinha também.
Era um cantador carregando a sua viola, com um cachimbo na boca.
Parecia distraído.

Então, quando ele estava bem no meio da ponte, o menino gritou:
— Olha o jacaré, olha o jacaré!
Cuidado com ele, que ele engole o seu pé!

O moço, quando ouviu aquilo, só teve tempo de olhar pra baixo e ver o jacaré abrindo aquela enorme boca, já se preparando pro bote.
Rapidamente, ele pegou da sua viola e iniciou uma modinha e como a sua viola era encantada; o jacaré ficou petrificado, feito uma estátua mesmo!
E assim, o cantador atravessou a ponte. Cantando e tocando a viola até chegar onde estava o menino que, é lógico, estava encantado também.

Só que o cachimbo ficou lá caído no meio da ponte.
Foi aí que ele falou:
— O menino muito agradecido viu? Se não fosse você, agora, eu era comida de jacaré.
O menino só respondeu:
— Não tem de quê!

O moço insistiu:
— Ah! Tem sim! Se não fosse por você, agora eu era um cantador mortinho. O que eu posso fazer pra lhe mostrar o meu agradecimento?
O menino se animou e respondeu:
— Bom, já que o cantador faz tanta questão de pagar o meu feito, me deixa com a viola e tá tudo certo!

A viola era muito importante pro cantador, afinal, era com ela que ele ganhava a vida. Foi então que ele falou:
— A viola? A viola eu não posso não! Sem ela eu não sobrevivo! Ela é quem me dá o meu sustento, o meu ganha pão!

O menino, então, perguntou:
— Então, me arresponda por favor. O que é mais importante: a viola ou a vida?
— A vida lógico!, respondeu mais que depressa o cantador.
E o menino mais depressa, ainda, foi falando:
— E eu lhe salvei a vida ou a viola?
— A vida claro!

Mas o menino muito esperto, respondeu:
— Não senhor, que eu lhe salvei a vida e a viola, né? E que é que eu peço em troca? Nada! O moço é que faz questão de pagar, ora! Então paga com a viola!

Era justo pensou o violeiro! A vida eu não arrumo outra, mas a viola?!
E assim, foi embora pra vila com as mãos abanando, porque a viola ficou com o menino.

O tempo passou mais um pouco e, enquanto o menino mexia com a viola, o jacaré estava era com mais fome e raiva daquele menino enxerido.
Foi aí, que apareceu outro ponto escuro lá no começo da ponte. Mas esse era bem maior e logo o menino identificou a velha que vinha com o seu burrico e o burrico que trazia duas cestas, uma de cada lado.

Numa das cestas havia uma galinha e na outra todos os ovos que a galinha havia botado.
E a velha vinha com o burrico, a galinha e os ovos. E a ponte balançando de um lado pro outro, de um lado pro outro: nhac! nhac! E o jacaré ali, pronto pra atacar, com aquela boca aberta, enorme.

Mas, quando ela chegou bem no meio da ponte, o menino pegou da viola e cantou assim:
“Olha o jacaré! Olha o jacaré!
Cuidado com ele, que ele engole o seu pé!”
Nossa! A velha olhou prá baixo e só teve tempo de ver a boca aberta do jacaré. Bem depressa, ela pegou alguns ovos e jogou rapidinho na boca dele, depois, pernas pra que te quero!

Já do outro lado do rio, a velha, ainda, esbaforida, coitada, falou pro menino:
— Puxa vida, meu filho, se não fosse por você, agora, eu era comida de jacaré! Muito, mas muito obrigada mesmo viu?

O menino só falou:
— De nada!

A velha, por sua vez, quis saber o que ela poderia fazer por ele, pra mostrar a sua gratidão e etecétera e tal. O menino falou:
— Não carece não!

A velha insistiu:
— Carece sim meu filho!

Foi, então, que o menino animado respondeu:
— Já que a senhora quer tanto, me deixa o burrico com a galinha e os ovos e fica tudo certo!

Nossa! Ela levou o maior susto com o pedido daquele menino! Afinal, o burrico era o seu meio de transporte, que ela já andava muito cansada! Quanto a galinha e os ovos eram o seu ganha pão.

Foi então que o menino quis saber:
— Dona, me arresponda uma coisinha só: O que é mais importante pra senhora, o burrico com a galinha e os seus ovos, ou a sua vida? Sem pensar a mulher falou:
— Claro que é a vida meu filho!

E ele continuou:
— A vida com o burrico a galinha e os ovos ou a vida sem o burrico, a galinha e os ovos?

A velha respondeu:
— A vida com o burrico a galinha e os ovos, né?

E o menino continuou sabatinando a velha:
— Mas quando a senhora nasceu, já nasceu cum o burrico, a galinha e os ovos ou nasceu sem o burrico, a galinha e os ovos?

A velha arregalou os olhos e respondeu:
— Não se faça de bobo menino! É claro que os bichinhos vieram depois!
— E como é que a senhora vivia sem eles então?

Aí, foi o queixo dela que caiu. Como ela não teve resposta, acabou concordando com aquele menino e foi se embora com as mãos abanando.
E o menino ficou ali com a viola, o burrico, a galinha e os ovos.
E o jacaré, também, ficou ali, com mais fome e raiva daquele menino atrevido.
O tempo passou mais, até que lá do outro lado da ponte um pontinho escuro começo a crescer.

Era um homem que trazia um saco vermelho e gordo nas costas. Parecia bem pesado.
Tanto, que a ponte foi balançando e abaixando, balançando e abaixando.
O jacaré rapidinho se arrumou pra dar o bote e o menino também.

Quando o jacaré abriu a boca, o menino pegou da viola e cantou assim:
— Olha o jacaré! Olha o jacaré!
Cuidado com ele, que ele engole o seu pé!

O homem do saco olhou pra baixo e deu de cara com a boca enorme do jacaré, toda aberta, baforenta!
Sem pensar muito, abriu o saco tirou uma melancia de lá de dentro, atirando pro jacaré e, enquanto o bicho comia a melancia, atravessou a ponte sem olhar pra trás.
Quando ele chegou do outro lado, o menino estava lá com a viola, o burrico, a galinha e os ovos.

O homem, então, foi logo dizendo:
— Obrigado muleque, muito obrigado! Obrigado mesmo!

E o menino perguntando:
— De quê mesmo?
— Como de quê! Se não fosse por você, a essa hora eu seria o almoço daquele jacaré!

O menino sorriu e falou:
— Bobagem!

O homem continuou:
— Bobagem não, que eu lhe devo a vida! Como posso lhe agradecer?

Foi aí que o menino falou:
— Já que o senhor quer tanto, deixa o saco com as melancias e tá tudo certo!
O saco? Com todas as melancias?

Isso o homem não podia fazer, porque aquelas melancias era tudo o que ele tinha pra vender na vila, fazer dinheiro, sustentar a família!

O menino, então, falou:
— Me arresponda uma coisa: Quantas melancias vale a vida de um homem? Uma, duas ou um saco cheio delas?

O homem não teve saída e respondeu:
— Um saco cheio delas é, ainda, pouco!
— Então tá barato né?

E, assim, o homem foi pras bandas da vila com as mãos vazias, enquanto o menino ficou ali com a viola, o burrico, a galinha, os ovos e o saco vermelho cheio de melancias, feliz da vida.
Acontece que já estava ficando tardinha e o menino tinha prometido dormir na casa da sua avó, que ficava do outro lado da ponte
Ele estava doidim de vontade de mostrar pra sua avó todas as coisas que havia conquistado.

Mas tudo junto era muito pesado!
Ele, então, ficou pensando qual seria a melhor maneira de fazer essa travessia sem que o jacaré lhe desse o bote e, depois de muito matutar, achou que era melhor enterrar metade das melancias, ali mesmo. Assim, no dia seguinte, poderia vendê-las na vila e a outra metade, o menino resolveu que deixaria algumas em sua casa e levaria o restante dentro do saco, assim, o peso ficava melhor distribuído.

E foi isso mesmo que ele fez.
Subiu no burrico, com a galinha de um lado e os ovos de outro, botou o saco com as melancias nas costas, enquanto segurava a viola.
E foi atravessando a ponte. A ponte que ele conhecia como a palma de sua mão.
E o jacaré só estava lá de botija! Bocão aberto, pronto pro bote!
A ponte balançando: Nhéc! Nhéc!

Quando o menino com a viola, o burrico, a galinha, os ovos e o saco com as melancias estavam bem no meio da ponte, foi que aconteceu.
O menino viu o cachimbo do cantador ali caído bem no meio da ponte. Então, ele esqueceu tudo. Esqueceu o perigo, esqueceu o jacaré, o burrico com a galinha e os ovos. As melancias. Esqueceu tudo.

E, foi aí que aconteceu. No pulo do menino, a ponte arriou. O burrico se assustou e saiu em disparada com a galinha cocoricando, enquanto os ovos se espatifavam no cesto.
O menino caído na ponte e ficou dependurado, mas não largou a viola nem o saco de melancias e, ainda, pegou o cachimbo.

O jacaré avançou. Só deu tempo do menino recolher a perna e sair em disparada.
Em disparada com uma perna só porque a outra o jacaré - nhac – nhac - engoliu!
Engoliu e morreu.

Já do outro lado da ponte, o menino olhou pro rio e viu o Jacaré morto de barriga pra cima.

Pegou a viola e cantou o outro trechinho da música. O trechinho que o jacaré não teve tempo de conhecer:
“ Olha o jacaré! Olha o jacaré!
Cuidado com ele, que ele engole o seu pé!
“Olha o jacaré, olha o jacaré!
Coitado dele vai morrer com o seu chulé!”
E, como o burrico e a galinha esperavam por ele à beira da ponte, o menino foi tratando de colocar as melancias num dos cestos, já que os ovos tinham ido pra cucuia.
Por fim, enfiou o saco vermelho na cabeça feito uma carapuça e subindo no burrico, foi se embora pra casa da avó, pitando o cachimbo e matutando, pitando o cachimbo e matutando.

Até que matutou alto:
— O que havera de ter mais importância?
Viver com as duas pernas, mas sem o cachimbo?
Perder uma delas e ganhar o cachimbo?
Viver com as duas pernas, mas sem o cachimbo?
Perder uma delas e ganhar o cachimbo?
Mas quando a vó do menino viu ele chegando, montado no burrico e pitando o cachimbo, nem se incomodou da falta da perna.

Abriu um baita sorriso e foi logo dizendo:
— Ô meu querido erê! Agora já posso ponhá nome n’ocê!
Ô meu negrinho safado, num vai ter no mundo quem não conheça o Saci-Pererê!

Foi assim, que o menino, erê, moleque, piá, curumim, que antes vivendo escondido na mata, tornou-se o Saci-Pererê, o mais famoso negrinho de uma perna só, conhecido por toda a gente pela sua coragem de matar o jacaré mais guloso e faminto daquela região, só com o seu chulé.
 

Débora Brenga

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